Cota: 00157.042Assunto: Carta de regressada de Moçambique, explicando como viveu o processo de transição da Guerra Colonial para a Independência de Moçambique. A remetente considera-se regressada de Moçambique. Explica que viveu diversos anos no território e fez imensos sacrifícios para dar uma vida melhor aos filhos, como qualquer emigrante português. Contudo, destaca que o emigrante envia as suas remessas para o seu país, enquanto que os retornados investiram tudo o que tinham na colónia em que se encontravam porque foram levados a crer que também ali era Portugal. Descreve os horrores que viveu durante a guerra colonial em Tete. Afirma que como qualquer pessoa humilde e trabalhadora, viu com esperança o 25 de Abril, como sinal do fim da guerra e do fascismo. Explica que todos os portugueses em Moçambique acompanharam com grande ansiedade as negociações para o Acordo de Lusaka e respiraram de alívio quando viram, aparentemente, garantida a salvaguarda dos bens, propriedade e pessoas portuguesas, assim como uma solução para os funcionários públicos. Tais salvaguardas não se verificaram pois existiu uma escalada de violência, prisões e humilhações por parte da FRELIMO, o que levou os brancos a começarem a enviar os filhos e as esposas para Portugal, enquanto os homens ficaram em Moçambique para tentar salvaguardar os bens que restavam, para levar para Portugal. Afirma que Samora Machel não respeitou o acordo de Lusaca e não só rescindiu os contratos com os funcionários públicos, como impôs taxas para que os portugueses pudessem levar os seus bens para Portugal. Refere ainda o facto do Estado Português ter disponibilizado embarcações e aviões para evacuar os portugueses e seus bens, assim como uma equipa de missão para salvaguardar o processo. Pede a Mário Soares que integre a equipa e que possa negociar com Samora Machel a retirada dos bens, sem taxas, de Moçambique.Destinatário: Mário SoaresFundo: Mário SoaresDatas: segunda, 19 de abril de 19761 Página(s): 6